(São Bento Grande / Regional)
Clarão da lua tem onda no mar
eu vi de longe o Cruzeiro do Sul
verga madeira, o Berimbau já chora
é roda de Capoeira
do meu grupo Aú*
[CORO] CLARÃO DA LUA TEM ONDA NO MAR
EU VI DE LONGE O CRUZEIRO DO SUL
VERGA MADEIRA, O BERIMBAU JÁ CHORA
É RODA DE CAPOEIRA
DO MEU GRUPO AÚ
No grupo Aú aprendi a lutar
com paciência o mestre me ensinou
a ser guerreiro, forte, mandigueiro
a honrar o meu grupo
seja aonde for
[CORO] CLARÃO DA LUA TEM ONDA NO MAR
EU VI DE LONGE O CRUZEIRO DO SUL
VERGA MADEIRA, O BERIMBAU JÁ CHORA
É RODA DE CAPOEIRA
DO MEU GRUPO AÚ
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* Muitos dos que lerem essa letra ficarão intrigados: mas o nosso grupo não se chama "Planalto Capoeira"? Sim, é claro. Mas foi no grupo Aú de Capoeira que os graduados se formaram, desde o Professor Sílvio, o fundador do nosso grupo, até eu mesmo. Essa cantiga, portanto, é uma homenagem ao grupo Aú, "onde aprendi a lutar", como já diz a cantiga.
terça-feira, 7 de outubro de 2008
LEGENDA DAS CANTIGAS
Para fins de esclarecimento, vou postar aqui o significado dos marcadores das cantigas que ando postando no blog:
(Tipo de toque: Angola, Yuna, Makulelê, Regional, etc.)
(momento em que se deve tocar a cantiga)
Letra em fonte normal indica que neste momento somente o tocador do Berimbau canta
[CORO] LETRAS EM MAIÚSCULA REPRESENTAM O CORO, MOMENTO EM QUE TODOS DEVEM CANTAR
(Tipo de toque: Angola, Yuna, Makulelê, Regional, etc.)
(momento em que se deve tocar a cantiga)
Letra em fonte normal indica que neste momento somente o tocador do Berimbau canta
[CORO] LETRAS EM MAIÚSCULA REPRESENTAM O CORO, MOMENTO EM QUE TODOS DEVEM CANTAR
CANTIGA [003]
(Qualquer toque)
(Quando um capoeirista derruba outro na roda)
O facão bateu embaixo
[CORO] A BANANEIRA CAIU
O facão bateu no meio
[CORO] A BANANEIRA CAIU
O facão bateu embaixo
[CORO] A BANANEIRA CAIU
O facão bateu no meio
[CORO] A BANANEIRA CAIU
CANTIGA [002]
(Angola / São Bento Pequeno)
Quando eu chego no mercado modelo
modelo
perto do amanhecer
Tem muita gente me esperando
perguntando "ó negão, que vai fazer?"
e eu respondo:
[CORO] EU SOU CAPOEIRA... E BATUQUEZEIRO
Lauê...
[CORO] EU SOU CAPOEIRA... E BATUQUEZEIRO
Lauá!
[CORO] LÁ LÁ LÁ LÁ LÁ LAUÊ
Lauê
[CORO] LÁ LÁ LÁ LÁ LÁ LAUÁ
Lauá
[CORO] LÁ LÁ LÁ LÁ LÁ LAUÊ
Tô chegando da Bahia, vim aqui só pra lhe ver!
[CORO] LÁ LÁ LÁ LÁ LÁ LAUÊ
Lauê
[CORO] LÁ LÁ LÁ LÁ LÁ LAUÁ
Lauá
[CORO] LÁ LÁ LÁ LÁ LÁ LAUÊ
Capoeira é a minha vida, a razão do meu viver!
Quando eu chego no mercado modelo
modelo
perto do amanhecer
Tem muita gente me esperando
perguntando "ó negão, que vai fazer?"
e eu respondo:
[CORO] EU SOU CAPOEIRA... E BATUQUEZEIRO
Lauê...
[CORO] EU SOU CAPOEIRA... E BATUQUEZEIRO
Lauá!
[CORO] LÁ LÁ LÁ LÁ LÁ LAUÊ
Lauê
[CORO] LÁ LÁ LÁ LÁ LÁ LAUÁ
Lauá
[CORO] LÁ LÁ LÁ LÁ LÁ LAUÊ
Tô chegando da Bahia, vim aqui só pra lhe ver!
[CORO] LÁ LÁ LÁ LÁ LÁ LAUÊ
Lauê
[CORO] LÁ LÁ LÁ LÁ LÁ LAUÁ
Lauá
[CORO] LÁ LÁ LÁ LÁ LÁ LAUÊ
Capoeira é a minha vida, a razão do meu viver!
CANTIGA [001]
(Angola)
(Ladainha)
Negro...
A escravidão já acabou
você já sofreu demais
passou frio e passou fome
olha quanta injustiça
isso não se faz com homem
Graças à Capoeira
chegou a libertação
essa cultura maneira
que invade o caração
Negro
Tu me ensina essa arte
para livre eu também ser
sei que nunca fui escravo
eu não sei o que é sofrer
Iê viva meu Deus...
quinta-feira, 11 de setembro de 2008
A RODA E SEUS RITUAIS

Uma roda é o momento de máxima expressão estética, cultural e simbólica da capoeira; é o lugar onde os capoeiristas se confrontam entre eles, dançando, mudando e sobretudo jogando. Durante a luta, conforme as dinâmicas que se criam durante a interação, eles fazem gestos e rituais ligados às tradições populares e aos cultos religiosos afro-brasileiros. Muitos ritmos exprimem a fé numa energia cósmica, o Axé, fluindo dentro da roda e alimentado as ações dos jogadores.
Geralmente a roda se desenvolve no modo seguinte: Os tocadores são os primeiros a se disporem em linha. Ao chamamento do berimbau, o instrumento simbólico da luta afro-brasileira, os capoeiristas se aproximam formando uma roda que abrange toda a bateria musical. Os tocadores começam a tocar cada um seguindo uma ordem específica até todos os instrumentos se fundirem em um ritmo só e o cantador entoar uma solene cantiga inicial (ladainha). Logo depois, se introduz outra que demarca a entrada do coro de todos os presentes. Daí, a interação vocal entre o cantador o os outros jogadores prossegue também nas cantigas sucessivas durante todo o jogo. Ao acabar a segunda cantiga, um sinal acústico do berimbau autoriza o primeiro par de capoeiristas a iniciar o jogo. Os dois se agacham em frente da bateria musical apertando as mãos, depois se abençoam - com o sinal da cruz ou levantando os braços ao céu – e tocam o instrumento sacro (o berimbau) para absorver suas energias.
Enfim, se inclinam perante ele como expressão de devoção e se dirigem ao centro da roda para começarem o jogo. A malícia da dança, a mandinga, se exprime nas contínuas dissimulações corpóreas que tentam pôr em dificuldade o adversário, bem como nos arranques súbitos (botes) que tentam surpreendê-lo em uma posição vulnerável.
Enfim, se inclinam perante ele como expressão de devoção e se dirigem ao centro da roda para começarem o jogo. A malícia da dança, a mandinga, se exprime nas contínuas dissimulações corpóreas que tentam pôr em dificuldade o adversário, bem como nos arranques súbitos (botes) que tentam surpreendê-lo em uma posição vulnerável.
AS CANTIGAS

As cantigas na capoeira são muito importantes; se insiste sobretudo em seu significado durante as fases do jogo. Existem quatro categorias principais: as Ladainhas, as Xulas, os Corridos e as Quadras. Durante a roda, se canta cada uma dessas cantigas em um momento específico assumindo um significado especial.
A LADAINHA
A ladainha é o canto que principia a roda de capoeira, cabendo a iniciativa ao mestre ou ao tocador do berimbau. As letras são muito solenes e podem contar eventos históricos especiais bem como homenagear as grandes personagens do passado. Durante a cantiga, todos os capoeiristas ouvem com interesse as palavras sem interferirem.
A XULA
A xula é uma forma de oração requerendo também o coro dos outros capoeiristas. O cantador diz frases breves de agradecimento que o coro repete juntando a palavra “companheiro” no fim de cada frase.
OS CORRIDOS
OS CORRIDOS
Com os corridos pode-se começar o jogo, mas somente depois de o berimbau dar a permissão entram os primeiros dois capoeiristas através de um sinal especial. É a cantiga mais freqüente e se compõe de frases breves alternando-se com o mesmo refrão. Geralmente, a primeira frase dita pelo cantador é aquela repetida pelo coro. Nas rodas de Angola os corridos são as únicas cantigas que podem acompanhar o jogo dos capoeiristas, enquanto na Regional, se podem também entoar as quadras.
AS QUADRAS
As quadras se compõem de estrofes mais longas de que os corridos, e mesmo os refrões variam, sendo diferentes por cada cantiga. Geralmente, o ritmo é mais rápido e são frequentemente acompanhadas pelo bater de mãos dos capoeiristas que compõe a roda.
A BATERIA

Entre os instrumentos existe uma hierarquia de valores determinando a posição de cada instrumento. Os três berimbaus (Viola ou Violinha, Média e Berra-Boi) são os mais importantes e são geralmente postos no centro da bateria.
O BERIMBAU
O berimbau marca o ritmo da roda, com seu toque que decide o tipo de jogo (devagar para Angola, veloz para Regional, entre outros). Trata-se de um instrumento musical muito primitivo constituído de um arco feito de madeira mantido esticado por um fio só (arame) percutido por uma baqueta (vareta). Em baixo, a cerca de um palmo da mão, há uma cabaça vazia funcionando como caixa de ressonância. O tocador mantém o instrumento em posição ereta com a mão esquerda – com a direita se canhoto - apoiando o berimbau na altura do abdômen de maneira que a abertura da cabaça fique na altura do umbigo. Com o dedo polegar e indicador se segura também uma pedra redonda ou uma pequena moeda chamada dobrão que, pressionada contra o fio de aço, muda o tom do som. A outra mão segura a vareta e um chocalho, o caxixi; a combinação destas características produz uma grande variedade de sons.
O ATABAQUE
O ATABAQUE
O atabaque é o instrumento mais poderoso da roda; é constituído de um tambor de grandes dimensões produzindo um som bastante grave. Acompanha o berimbau, dá força e produz a música de fundo que dá ritmo ao jogo.
O PANDEIRO
O pandeiro é um tamboril constituído de um aro de madeira coberto por pele de cabra com soalhas enfiadas em redor dele.
O RECO-RECO
O pandeiro é um tamboril constituído de um aro de madeira coberto por pele de cabra com soalhas enfiadas em redor dele.
O RECO-RECO
O reco-reco é constituído de uma ripa de madeira ou um gomo de bambu com talhos transversais, não muito profundos, a intervalos regulares. A raspagem de um pauzinho sobre os talhos, de baixo para cima e vice-versa, produz o som, obtendo duas tonalidades diferentes.
O AGOGÔ
O agogô é um instrumento constituído de um pequeno arco de metal com dois cones também de metal, de diferentes grandezas na extremidade. Batendo com uma baqueta de madeira nas duas campânulas, se produzem dois sons diferentes.
MÚSICA E AXÉ

A dimensão musical é fundamental na luta afro-brasileira; os diversos tipos de cantigas e os ritmos do tambor animam a roda e caracterizam jogos diferentes, sendo uma parte imprescindível da interação entre os capoeiristas. A fusão entre a luta dos escravos e a ritualidade da cultura africana tem uma de suas expressões máximas nas cantigas e nos ritmos tribais da capoeira. O elemento divino é presente em muitos textos e mesmo o berimbau é considerado um instrumento sacro (sagrado), pois de suas vibrações brota o Axé que afeta o estado de consciência dos jogadores.
MANDINGA

O termo “mandinga” pode se traduzir como “malícia” mas seu significado simbólico exprime uma dimensão mágico-religiosa além da tradução literal. Entre as muitas interpretações existentes na comunidade de capoeiristas, uma co-dividida por muitos a identifica com a malícia dos escravos africanos para com seus perseguidores.
Durante a escravidão, adotavam uma aptidão submetida induzindo seus opressores a julgá-los inferiores. No momento oportuno, se atiravam contra eles atingindo-os de morte e assim conseguiam fugir. Dentro da ficção maliciosa, estava o desejo de desforra contra quem os privou da liberdade. Na capoeira contemporânea, a essência da mandinga se exprime através de gestos específicos evocando elementos místicos da tradição afro-brasileira e permitindo aos jogadores de dançarem dentro de uma luta sem explicitar o combate. Representa uma arte mágica implicando o conhecimento profundo das forças da natureza e a capacidade de utilizá-las através ritos especiais.
JOGO, DANÇA, ARTE MARCIAL

Se começa o jogo formando uma roda de pessoas. Os instrumentos começam tocar e os presentes cantam e batem as mãos enquanto dois jogadores se enfrentam no centro do grupo. O jogo requer capacidades de intuição para prever os lances do adversário; o capoeirista deve descobrir os limites de seus adversários e se empenhar em ataques e contra-ataques que demonstrem seu poder pessoal. O segredo é cruzar, com harmonia, a graça e a dança, o equilíbrio e a flexibilidade das acrobacias, a velocidade e a malícia da luta nunca perdendo o ritmo ditado pela música.
O passo básico da capoeira, a ginga, é um passo de dança ligando os movimentos. A capoeira utiliza muitos elementos acrobáticos como o Aú ou os “saltos mortais” que não só reavivam o jogo, bem como oferecem uma série infinita de possibilidades de ataque e defesa. A capoeira é uma mistura de arte marcial, ginástica e dança. A característica principal que a diferencia de outras artes marciais é que o capoeirista procura nunca tocar seu adversário com as mãos. Isto se deve aos escravos que a criaram, que eram acostumados a lutar com as mãos acorrentadas, contando somente com suas pernas.
Um capoeirista demonstra sua habilidade também fazendo expressões esquisitas com os olhos e o rosto; não toca seu adversário, porém o distrai (finta), faz um gesto como se o fosse golpear, mas bloqueia o golpe antes de atingi-lo (marcação).
A HISTÓRIA DA CAPOEIRA - PARTE 6

A HISTÓRIA DA CAPOEIRA REGIONAL
Com a abertura da escola, Mestre Bimba fixa regras para a capoeira, sendo por isso criticado pelos puristas. Ele criou um estilo de jogo alternativo com inspiração nas artes marciais orientais. A Luta Regional Baiana mantém algumas características típicas da capoeira tradicional como a música, a ginga, alguns movimentos de luta e a roda, apresentando, porém, muitas diferenças.
O ritmo instrumental era mais premente e rápido bem como os movimentos do corpo dos jogadores. O jogo era mais “alto” e veloz, se comparado ao jogo “perto do solo” do estilo tradicional (Angola). Todo este novo repertório gestual, musical e técnico-corporal foi sintetizado na denominação Capoeira Regional.
“Salve Mestre Bimba, criador da Regional...”
A HISTÓRIA DA CAPOEIRA - PARTE 5

A LEGALIZAÇÃO DA CAPOEIRA
Ao ser abolida a escravidão, alguns ex-escravos foram de volta para a África, mas a maioria permaneceu no Brasil. Os fazendeiros, porém, não eram se interessavam neles como força de trabalho paga, pois os imigrantes custavam menos. Esta massa de ex-escravos se dirigiu para as grandes cidades; todavia, não conseguiram encontrar trabalho nem moradia. Não sabendo como sobreviver, utilizavam a capoeira de várias maneiras: alguns faziam espetáculos nos arredores do porto para os turistas e marinheiros; outros se organizavam em gangues criminosas roubando e assaltando os ricos; outros decidiram se alistar no exército ou serem assumidos como guarda de corpo de políticos e altos funcionários estaduais. Então, o capoeirista era visto como um indivíduo distinguindo-se no universo urbano e tentando, de sua maneira, integrar-se e viver naquela nova sociedade. Progressivamente, as diferentes manifestações se tornaram mais visíveis e mais toleradas pelo povo que até começou se demonstrar interessado em conhecer a capoeira e aprender alguns elementos básicos.
A lei proibindo a capoeira permaneceu em vigor até 1920, mas naquela altura ainda não era muito fácil abrir uma escola ou academia. Durante muitos anos, o terreiro foi o mais importante centro de prática e divulgação da dança guerreira. O evento definitivo marcando o fim das persecuções e a chegada de uma nova época para a capoeira, foi dada por um mestre de Salvador, chamado Manoel dos Reis Machado, o Bimba, o Mestre dos Mestres. Em 1937, Mestre Bimba foi convidado à capital para uma demonstração oficial de sua arte. Depois do grande êxito, obteve a permissão para abrir a primeira escola de capoeira no Brasil, o que marcou o primeiro passo para uma maior abertura cujo ápice foi a declaração da capoeira como esporte nacional.
A lei proibindo a capoeira permaneceu em vigor até 1920, mas naquela altura ainda não era muito fácil abrir uma escola ou academia. Durante muitos anos, o terreiro foi o mais importante centro de prática e divulgação da dança guerreira. O evento definitivo marcando o fim das persecuções e a chegada de uma nova época para a capoeira, foi dada por um mestre de Salvador, chamado Manoel dos Reis Machado, o Bimba, o Mestre dos Mestres. Em 1937, Mestre Bimba foi convidado à capital para uma demonstração oficial de sua arte. Depois do grande êxito, obteve a permissão para abrir a primeira escola de capoeira no Brasil, o que marcou o primeiro passo para uma maior abertura cujo ápice foi a declaração da capoeira como esporte nacional.
A capoeira experimenta agora no Brasil um grande desenvolvimento e tem a tendência a se expandir também no estrangeiro: a beleza da luta nascida do desejo de liberdade dos negros oprimidos.
A HISTÓRIA DA CAPOEIRA - PARTE 4

OS AGÉIS BANDEIROS
Notícias históricas sobre a capoeira como arte marcial remontam aproximadamente ao final do século XVIII, especialmente algumas actas policiais do Rio de Janeiro dos idos de 1800. Durante o dandyismo, até meados do século XIX, os capoeiristas eram sempre descritos como seres elegantes, refinados, dotados de uma agilidade fora do normal. Escravo em fuga, ou agil bandeiro, seguido por uma aragem legendária provocando admiração e simpatia entre seus similares, o capoeirista se torna o objeto de uma repressão violenta, considerado pelos governantes uma “chaga social”, suspeitado de querer destruir a vida política do país.
Todavia, na última década do século XIX, até membros da alta sociedade começaram praticar a capoeira; isto foi considerado uma ameaça pelo governo, que criou um pequeno corpo policial especial para controlar a situação. Não obstante a intimação contra esta prática, alguns chefes de polícia eram mesmos excelentes capoeiristas podendo assim lutar contra o “inimigo” na mesma maneira. A criminalização da capoeira não encontrou muitos consensos, mas marcou a vitória de uma facção da classe dirigente nacional. No dia 11 de Outubro de 1890, só dois anos depois a abolição da escravidão no Brasil, foi promulgada uma lei proibindo a capoeira e prevendo sanções penais de dois a seis meses de trabalhos forçados a quem a praticasse.
Como praticavam a capoeira não só ex-escravos e mestiços, esta lei acabou por afetar inclusive expoentes da nobilidade. Não obstante a persecução, a luta de origem africana continuou a resistir e sobreviver, praticada nas praças das periferias das cidades e durante as festividades organizadas pelas comunidades negras. Muitas vezes as patrulhas da polícia chegavam de improviso, mas os capoeiristas tinham sinais convencionais, com os quais avisavam seus companheiros. Assim fazendo, conseguiram conservar e perpetuar suas tradições por gerações, ensinando a capoeira a seus filhos e a quem quiser aprendê-la.
A HISTÓRIA DA CAPOEIRA - PARTE 3

FUGA E REGRESSO ÀS RAÍZES: OS QUILOMBOS
A dominação foi contrastada sobretudo com a fuga das fazendas e com a criação, nas matas e florestas, longe dos opressores, dos quilombos, termo que, em sua língua, significava “capital”, “união”, e que no Brasil assumiu o significado de “abrigo”. Tratavam-se de comunidades organizadas e auto-suficientes formadas de pequenas aldeias chamadas mocambos. A partir de meados do século XVI, os quilombos começaram aumentar, surgindo em todas as Capitanias e principalmente nas regiões do norte de Pernambuco e Alagoas.
Nestes territórios nasceu a verdadeira nação negra, chamada Palmares, que enfrentou os escravagistas com coragem e eficiência. Ao longo dos anos, Palmares se desenvolveu muito tornando-se uma fortaleza em que viviam dez mil pessoas. Os quilombos dos Palmares se tornaram uma pequena África onde os negros tentavam reabilitar suas raízes, abandonando os nomes portugueses dados por seus donos, e adotando os de origem africana. Durante quase cem anos, Palmares sofreu numerosos ataques pelos Capitães do Mato, homens encarregados de prender os escravos fugidos, mas graças à coragem de seus habitantes, a comunidade conseguiu resistir durante muito tempo.
Seu maior herói foi Zumbi, que conduziu a batalha final contra o governador de Pernambuco. O combate foi muito violento e acabou com a derrota total dos quilombolas. O sistema escravista tentou cancelar da memória coletiva dos escravos negros a idéia da existência de uma alternativa verdadeira à estrutura social baseada na exploração do trabalho forçado. Não obstante isso, nos numerosos quilombos que surgiram no Brasil ao longo dos séculos, o grande Zumbi continuou a viver e ser considerado o máximo mestre de capoeira.
A HISTÓRIA DA CAPOEIRA - PARTE 2

A ORIGEM DA CAPOEIRA
Os escravos africanos tinham grande vigor físico devido principalmente ao intenso esforço muscular requerido pelo trabalho. Por conseguinte, na luta corpo a corpo, eram efetivamente superiores aos portugueses. A aparente submissão aos donos era só a maneira para os escravos, que tinham usos e costumes diferentes, ganharem o tempo necessário para aproveitar uma ocasião para fugir, embora fosse ainda mais difícil, pois eles não tinham uma língua comum.
Os africanos não podiam trazer consigo nenhum tipo de arma, nem ter comportamentos violentos, não havia, enfim, modo nenhum de lutar contra seus carcereiros de maneira igual. Podiam só celebrar os ritos de sua própria cultura ao acabar o horário de trabalho; estes eram os únicos momentos em que podiam pedir ajuda e proteção a suas divindades, procurar uma maneira de reagir com a única arma que tinham a disposição: seu corpo. Disfarçando a luta na dança e com a ajuda da música e das cantigas, os escravos podiam treinar perante os feitores sem despertar suspeitas. Os movimentos do corpo dos africanos serviram como base para o desenvolvimento de uma luta coletiva. A energia, a fluidez e a agilidade do corpo conjugaram perfeitamente o fascínio da dança com a eficácia da luta. A maioria dos golpes trazia inspiração das técnicas de ataque e defesa de alguns animais, reproduzindo também a ação de alguns instrumentos de trabalhos utilizados no cotidiano.
Através de uma comunicação sem palavras e conjugados na plasticidade e harmonia de gestos comuns, seus sentimentos encontraram desafogo na revolta e na insubordinação às regras do sistema colonial numa maneira absolutamente invisível a seus opressores.
quarta-feira, 10 de setembro de 2008
A HISTÓRIA DA CAPOEIRA - PARTE 1

Para retornar às origens da capoeira e de seu complexo sistema ritual e simbólico, se torna necessário remontar até a época da descoberta do Brasil, nos meados do século XVI. A colonização brasileira começou durante o reino de D. João III, conhecido como “O Colonizador” pelas numerosas expedições que organizou nas novas terras.
Não existindo as imensas riquezas de ouro e prata que os portugueses se expectavam, nos primeiros anos de 1530, se introduziu o cultivo da cana de açúcar. Por conseguinte, nasceu a necessidade de encontrar abundante mão-de-obra para trabalhar nos imensos plantios. No começo, se tentou utilizar as populações indígenas de etnia tupi-guarani que moravam na grande faixa costeira, mas eram tribos guerreiras dedicadas principalmente à caça e não dispostos em cederem seu prestígio ao trabalho agrícola e, além disso, ao domínio de um padrão estrangeiro. Por isso, os índios se rebelavam continuamente contra a imposição de um sistema que os tornaria escravos; preferiam morrer a ser escravos.
O problema da falta de mão-de-obra foi resolvido deportando de forma consistente para as novas colônias brasileiras os escravos negros dos territórios portugueses na África. Procedentes de diversas regiões africanas, eles traziam consigo sua cultura, sabedoria e costumes. Divididos entre os três centros principais, Bahia, Recife e Rio de Janeiro, os escravos pertenciam a diferentes grupos étnicos, às vezes a tribos inimigas, o que inicialmente lhes impediu de se organizarem e rebelarem. Eram constrangidos a viver nas senzalas, pequenas aldeias constituídas de muitas casas ruinosas, uma atrás outra, equipadas com o mínimo necessário.
O problema da falta de mão-de-obra foi resolvido deportando de forma consistente para as novas colônias brasileiras os escravos negros dos territórios portugueses na África. Procedentes de diversas regiões africanas, eles traziam consigo sua cultura, sabedoria e costumes. Divididos entre os três centros principais, Bahia, Recife e Rio de Janeiro, os escravos pertenciam a diferentes grupos étnicos, às vezes a tribos inimigas, o que inicialmente lhes impediu de se organizarem e rebelarem. Eram constrangidos a viver nas senzalas, pequenas aldeias constituídas de muitas casas ruinosas, uma atrás outra, equipadas com o mínimo necessário.
Nas senzalas e na casa patronal, onde viviam os donos dos engenhos, o dono era o patrão absoluto. Os africanos submetidos ao trabalho forçado eram controlados pelos feitores, aos quais cabia a tarefa de estabelecerem a disciplina e garantirem a produtividade. Depois de serem desenraizados de sua terra, os escravos tinham que conduzir uma vida de sacrifícios. O esforço físico-mental era tão grande que um africano sobrevivia em média de sete a dez anos, não considerando que a viagem para o Brasil era uma demonstração de enorme resistência.
A imensa dor causada pela perda da liberdade fomentava seu desejo de revolta, o sofrimento e a extrema saudade, gerando um sentimento coletivo chamado banzo.
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